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Psicose

  • Alexander Bertoti
  • 21 de jun. de 2020
  • 2 min de leitura

Estive viajando por várias noites, devo ter passado por mais de quatro ou cinco cidades. Acabei por parar neste hotel ao lado de um velho posto, o lugar consegue por partes me enojar com estes quarto de madeira beirando a podridão e com o som quase enlouquecedor que o quarto ao lado faz, parece ser algum tipo de som instrumental, talvez haja algum violinista ou membro de algum coral hospedado nele, o som é composto por uma notável sonoridade sagrada, parece esplandecer em nome de algum deus ou culto sagrado.


A noite vem e pela janela suja de pó consigo sentir a incontrolável tristeza esgueirar-se e abraçar minha alma, o demônio vem em meu ouvido e diz que seria muito mais fácil terminar com tudo isto; um tiro, uma corda ou uma ponte, qualquer coisa prática e rápida seria como um feito de bondade, mas não, ainda não. A voz de um anjo amargurado rosna em minha outra orelha e clama pela vida, pelo pulsar que minhas veias em êxtase possuem. Já se foram mais de duas horas neste quarto. Passei boa parte do tempo observando, revirando novamente essas folhas e fotografias, as mesmas me causam uma ansiedade fervente, as tiro de cima da cama com o chacoalhar da coberta, um breve impulso de raiva acabou por tomar conta, agora tudo cai, impossibilitando qualquer grande passo sem amassar minhas preciosas e única companhia.


Nesse pequeno instante um som de papel sendo amassado como folhas numa oculta floresta toma conta do ambiente, a luz artificial da lâmpada de teto ilumina vagamente o quarto, a tonalidade amarela e suja desenha de forma horrível a enorme criatura negra que me subjugava apenas com sua presença sobrenatural. Já havia passado por centenas de quilômetros, mas essa fera das sombras continua me seguindo como um cão que não larga o osso, consigo trazia todas as enormes maldades do mundo.

Gotas infinitas de sangue gritavam ao escorrer de suas mãos, podia me sentir anestesiado de pavor e horror, me falta palavras para descrever o que pude sentir ao observar novamente essa desumana forma em minha frente, sem rosto, sem essência, que me acompanha por dentro de minha sombra e alma, manipulando minhas mãos para que os mais abomináveis atos de crueldade fossem concretizados, sem desdém pela vida humana, enquanto caminha no solo da profanação cadavérica de inúmeros corpos.


Mas a alucinação do sobrenatural fora interrompida mais uma vez pelo som tenebroso que as presas faziam a minha procura, a luz vermelha adentrava o quarto e iluminava meu rosto manchado pela calamidade, pelo sangue, e pelas vidas inocentes que presenciei se esvaírem de seus corpos.

O clímax estava prestes a começar, a luz alucinante vermelha e azul iluminavam as fotografias dos corpos, das faces pálidas e dos papeis onde haviam a descrição de cada ato e crime pela vida, o horror transcrito manchado pela profanação e por toda a escuridão que vive em minha alma, em meus atos.


Dessa vez tudo ficará por terra, corro para que o julgamento seja feito pelas mãos deles, a caça está noite arrancará a vida de meu corpo e o abismo que cresce por dentro encontrará finalmente o alivio.




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