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A Toca Do Coelho

  • Alexander Bertoti
  • 8 de jul. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 9 de jul. de 2020

Arrasto o restante da minha sanidade nas paredes cinzas de tom gélido e diabólico que me cercam há dias, noites e anos. Entrar na toca do coelho é cair diretamente no colo da insanidade, é sentar-se na mesa de janta servida pelos mais odientos pesadelos.

O pior e menos esperado momento desse infinito sonho é de quando a porta cinza é arrastada pelo enfermeiro, que se proclama um salvador de nossa doença, a cada visita dele menos somos capazes de fugir de nós mesmos. Não são as paredes e o lugar que me prende aqui, é minha própria mente.


E para mais onde eu poderia ir?

Para onde minha mente voaria?

O país das maravilhas.


É quase como um lamento para os anjos de sorrisos maléficos que me olham todos os dias pela pequena fresta da porta. Acredito poder contar nos dedos das mãos e pés juntos o número de pessoas, monstros que odeio e que vivem nesse lugar. Não há muito a quem culpar, meus pais? Minha mente perdeu seu rumo a muito tempo atrás, sanidade jamais esteve presente em nenhuma das minhas vidas, em nenhum dos meus sonhos e nem mesmo no país das maravilhas.


Lobotomia!

essa palavra range como uma casa velha e ecoa pelas paredes de minha mente; quase consigo lembrar do som que os instrumentos metálicos faziam ao adentrar e corroer meu cérebro.

Ao mesmo tempo relembro do som que o gato fazia ao sorrir loucamente e desvairadamente dentro daquela sala suja. Ao mesmo tempo que o chapeleiro montava em meu corpo e me olhava fixamente nos olhos, a insanidade e desespero personificados.

Mas nada disso era real; a lobotomia deveria destruir minha mente, mas ainda consigo distinguir o real da fantasia, embora, enquanto escrevo essa curta carta com as mãos sujas de sangue, o tic-tac do relógio que o coelho em meu ombro balança sem parar.


UM MINUTO DA HORA DO CHÁ – ELE DIZ


Rasgar cada parte do corpo desses enfermeiros pervertidos e repugnantes de início foi uma boa ideia, mas agora vejo os corpos estirados e nada sinto. A toca do coelho já não me parece tão segura e o mundo real se torna decepcionante. O gato, está cantarolando algo pelos corredores, me chamando para adentrar novamente ao quarto cinza.

Talvez no fim das contas seja só isso, a toca do coelho, o quarto cinza, as paredes e a loucura.


A perspectiva da insanidade não é tão real, talvez essa porta nunca tenha sido aberta e a faca nem exista. Logo a porta se abrirá e o enfermeiro em seu surto de perversão fará o mesmo de sempre, então o país das maravilhas passará a existir e verei uma lagarta, cogumelos, um chapeleiro, um gato sorridente e um coelho paranoico.

Teremos a hora do chá, duas rainhas, deuses e um mundo atrás do espelho.


Ao esfregar as mãos pela textura das paredes, vejo a sujeira levemente tomar conta dos meus poros enquanto relembro os sons do meu cérebro profanado. Uma risada sem fim e uma Lua em formato de sorriso. Consigo ouvir no quarto vizinho aquele que chamo de Chapeleiro, ele tem um cabelo engraçado e no momento grita e cantarola, a bipolaridade avassaladora toma conta dele e o transforma de um ser cativante a um depressivo suicida, tão rápido quanto as cabeçadas que ele dá na porta durante a madrugada. Dormir por aqui é quase impossível; olheiras, fraqueza e bocejos se tornam em pouco tempo a feição padrão dos pacientes.


Me arremesso no chão frio e olho para essa pequena janela no canto esquerdo, passo uma parte do meu tempo livre imaginado como está o clima lá fora, se o mundo ainda existe e se as pessoas ainda sorriem. Essa janela ao mesmo tempo que me torna menos insana, também carrega consigo todo o País Das Maravilhas, o buraco pelo qual o coelho entrou pela primeira vez.

Aos poucos consigo sentir minha mente escorregar, já não tento mais a segurar; Ela escorre entre meus dedos e se torna uma gosma escura imensa no chão aos poucos devora meu corpo, e minha sanidade, minhas palavras, a voz em minha mente, mastiga... mastiga essa Alice. E uma nova nasce coberta por pesadelos.

O País Das Maravilhas

Me vejo caindo em meio ao abismo de rostos familiares e diabólicos, rostos de pessoas que talvez eu devesse amar, que vivem fora desse local. Meu corpo explode nas marés gosmentas e quando volto a superfície vejo no canto do mar o coelho, dessa vez ele está um pouco diferente, mais auto destrutivo. Em terra contemplo o que um dia foi um belo local repleto de fantasiosas maravilhas, não demora muito para o coelho sair correndo e em seu lugar surge um sorriso que diabolicamente se forma em minha frente, o gato, em seu esplendor maléfico.

Andamos por longos minutos, a cada pequeno vão podia enxergar as belezas que já não estavam mais ali, como o trono da lagarta, que agora enchia-se de lava e cobria boa parte dos cogumelos, flores e o verde que se mantinha vivo, mas em dor, queimando para sempre, como minha mente.

Nesse pequeno e breve momento de nostalgia pude jurar que um sorriso se formou em minha face, mas não consigo confirmar com exatidão. Todo o meu rosto se parece falso, frio e tomado pela melancolia de tal forma que não sei se meu sorriso pode ter sido por ternura ou por malicia.

Me pergunto em qual momento eles conseguiram mergulhar minha mente no limbo, quando foi que adentraram como sanguessugas em meu mundo de maravilhas.

Pensei que jamais poderia me machucar neste local, mas bem, o pesadelo em minha volta prova ao contrário. Mesmo que tudo seja apenas um sonho, mesmo que minha alma já esteja destruída, mesmo que a dor já não exista mais. Jamais existirá um final para essa história, para minha mente. Apenas inícios, já segui o coelho inúmeras vezes, a malicia e a inocência foram trancadas em algum lugar fora do alcance de minhas mãos.

TRÊS

DOIS

UM!

Sussurrou o gato atrapalhando meus pensamentos.


O que houve?

O que houve senhorita Alice? sorriu

O mundo em minha volta rachou-se como um espelho, me vi caindo novamente na maré gosmenta. Dessa vez o gato caminhava em cima da mesma e novamente:

TRÊS

DOIS

UM

O céu rachou e uma onda de sangue caiu sobre todos nós, o vermelho percorria toda a minha visão, enquanto me engasgava com a quantidade absurda e grossa de sangue o gato cantarolava em minha mente:


Três, dois, um! Novamente você irá morrer, Alice.


Me pareceu mais que óbvio que não havia mais nada, nenhum lugar ou refúgio, o Pais Das Maravilhas havia se tornado um fragmento, uma pequena parte que ainda não fora destruído por eles. Sinto a sanidade lentamente desgrudando e assombrando-me, aos poucos abro meus olhos e as primeiras imagens em minha mente são a de todos os meus amigos que viviam lá, todos que morreram e enlouqueceram devido a minha própria doença, minhas mãos sujas e imundas do pó do quarto não são nada comparado a minha mente coberta por sangue.

Nada já me resta além de memórias, mordo meus lábios com uma força obscura enquanto ouço a porta sendo destrancada, o ciclo sem fim do pesadelo viverá para sempre.

MAS ORA ORA QUE SURPRESA!

Disse o gato

Em minha frente o Chapeleiro coberto por sangue, enquanto gritos ao fundo ecoavam pelo local, conhecia os gritos, eram os enfermeiros. Ele agarrou uma das minhas mãos e disse:


Vamos fugir! Vamos fugir!


Enquanto por cima dos meus ombros eu via o gato destroçando um dos enfermeiros, enquanto gargalhava freneticamente e ele crescia, crescia sem parar, enquanto sua risada se tornava a melodia da nossa fuga.

Já no pátio o Chapeleiro largou minha mão: Siga em frente!


Você não vem?

Há-Há Sabe Alice, não sou nada sem as paredes cinzas, sem minha loucura.

Já não era mais o mesmo chapeleiro, ele então sai correndo em direção aos gritos, em direção ao macabro e sanguinário cubo cinza e gélido que cobria toda a minha visão.


“Então é assim por fora” – pensei


Esgueire-me pelo pátio e pulei um dos muros mais baixos; minhas mãos, braços e pernas foram profundamente cortadas pela cerca de ferro e perfurante, mas nada disso se comparava a calmaria que passei a sentir. Estou a alguns dias me escondendo pelas sombras dos prédios, no jornal a noticia da rebelião no sanatório, nenhum enfermeiro sobreviveu, um fugitivo e o controle foi tomado resultando muitos pacientes mortos.


Espero que nada aconteça ao Chapeleiro.

E para onde você irá agora...? – Murmurava o gato


Para longe, onde minha mente possa se reconstruir.


E você acredita que há solução para ela? Você irá me matar caso faça isso...


Você já morreu faz tempo, és só uma voz no corpo de um velho amigo.


E sim, talvez não haja solução para minha mente quebrada, mas parada não vou obter as respostas.

E lá estava Alice, saindo finalmente das sombras e indo em direção ao amanhecer, com seu longo vestido branco, com amarras que balançavam de um lado para outro, seu cabelo negro e longo desenhava sua forma frágil, doente e em seus olhos vivia a janela para um mundo maravilhoso, que jamais voltaria a acontecer.

Pois, nada disso era real.


Ela jamais deixaria o Chapeleiro sozinho, ambos voltaram. Agora em seu último pensamento ela fantasia o que havia acontecido se conseguisse fugir, mas claro, nada aconteceria, pois não são as paredes cinzas que a prende aqui, mas sua própria mente.

Me torno sua ultima memória visual, restam poucos centímetros antes que o instrumento adentre para sempre em seu cérebro e assim, talvez, ela viverá para sempre em um novo Mundo; Das Maravilhas ou talvez repleto de Pesadelos.

Jamais saberemos.


Há uma lagrima que escorre pela ultima vez de seu rosto.

Uma lagrima que carrega o peso de um Mundo.

Um País, o País Das Maravilhas.

- Gato de Cheshire.




Dedico este conto especialmente para minha melhor amiga, Gabriela Eduarda Clasen!



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