top of page

Carona Arcana

  • Alexander Bertoti
  • 18 de mai. de 2020
  • 3 min de leitura

Noites de lua cheia costumam ser agitadas, principalmente para aqueles que dirigem em meio à noite em rodovias sem fim. Onde as estradas parecem engolir os motoristas em caminhos enigmáticos e arcanos. Irá acontecer com você também, em alguma noite enquanto seu carro percorre a estrada, e a noite tratará de curva-se sobre você como um abraço de mãe, adotando-lhe para si. Passarás por curvas, por lojas e postos com quase nada de iluminação. Isso sempre acontece com os viajantes noturnos, as famosas e temíveis experiências sobrenaturais. Pararás para abastecer no segundo e último posto, será recebido por uma conveniência pútrida, caindo aos pedaços e habitada por apenas baratas, vermes e pelo velho do outro lado do balcão, ele dirá:


“O que você procura nessas estradas?” em meio a um gemido de dor e com olhos transbordados por empatia.


Seja lá qual for sua resposta, não mudará por aquilo que viverás nessa agora estrada fantasma. Na rodovia você já não está mais sozinho, os fantasmas viajantes e ceifeiros lhe aguardam como mestres de uma passagem espiritual. Mas eles não são nada comparado as temíveis e viscerais Sedutoras, elas que guardam as curvas das estradas como urubus no aguardo da sua presa destinada, formas diabólicas.

Após um bom tempo em linha reta, os fantasmas da beira da estrada já não serão mais nada para seus olhos, porém, na curva que se aproxima você verá a primeira; ela com longos cabelos negros, de pele fina e branca como um floco de neve, seu instinto primitivo e mundano o fará pelos menos pisar no freio, mas me diga:


“Você irá parar?”


Vejo que muitos parariam, agora vos lhe digo o que acontece caso escolha dar carona para a amante da morte.

Primeiro você perceberá que os fantasmas sumiram e a longa estrada se tornará menos sobrenatural, como se a noite terna houvesse voltado. Ela entrará em seu carro e pedirá carona para determinado lugar, para ser mais exato; ela pedirá que você pare no primeiro posto que encontrar. Vocês conversaram, trocaram olhares, talvez se apaixone por aqueles olhos azuis, de uma cor que só se encontra em rasos lagos dos bosques, olhos com um tom arcano e encobrido por uma escuridão invisível.


“Você tem cigarro?” – Perguntará a mulher


Espero que você tenha, essas coisas gostam de fumar. A fumaça entra pelos já não mais pulmões, esgueiram-se pelo vazio do seu corpo e as completam, se sentem mais humanas.

Houve um homem já de idade, em torno de seus cinquenta anos que não tinha cigarro para mulher e ainda por cima tentou passar sua mão nela como se ainda fosse humana, mesmo sabendo que havia algo de errado com a situação. O ser humano pode ser cego e escravizado facilmente por suas dependências carnais e vícios, nem passando pelo mais cruel e obscuro purgatório o fará ser mais dependente de sua própria alma e não de sua casca humana. Ele possuía um nome, se chamava Vlader e o mesmo a levou para o motel mais próximo, nem percebeu que já estava a horas dirigindo, exausto caiu sobre a cama sem nenhum remorso. Naquela noite sonhos tenebrosos o perturbaram, sonhava com a mulher que dormia ao seu lado, que ela não era o que demostrava ser. Ao acordar durante a madrugada, a vê em pé olhando para a janela e com a chuva cobrindo qualquer visão clara do mundo lá fora, ela volta para a cama e após alguns minutos, um grito tão alto que a consciência de Vlader por alguns segundos se perdera.


- Pare! Hey, mulher! Pare! – gritava ele


Mas nada, é como uma enorme canção de ninar terrível. Assustado ele pega suas coisas e tenta sair do motel, mas da janela de seu quarto vê inúmeras mulheres parecidas com a mesma que estava dentro do quarto, todas o encaravam, estáticas e fragmentadas pelo horror e acariciadas pela agora mansa chuva noturna. E então suas bocas abrem lentamente esbanjando um grito em coral estrondoso e diabólico. Naquele pequeno espaço entre o terrível e o vivente, estava um homem que havia dado carona para algo fora de nossa realidade, algo que ele jamais devesse ter feito.

Por fim, Vlader acorda e para sua surpresa está no mesmo local que havia dado carona para a diabólica mulher, parado da mesma forma e com o vidro aberto como se houvesse voltado para o momento exato. Agora já de manhã, com o Sol expurgando qualquer tipo de sombras da estrada, ele volta para seu trajeto normal, sabendo que havia uma história pregada em sua mente que casualmente atordoaria sua sanidade e assombraria os restos de seus dias, para sempre.


Há quem diga que Vlader nunca voltou ao normal, encontrado várias vezes remoendo a história nos bares locais. O tempo agiu sobre ele e o terror também, não possuía mais nada; perdeu família, amigos, casa, ficando por fim com sua história de fantasma e dormia abraçado ao horror e solidão.




Posts recentes

Ver tudo

Comentários


  • twitter
  • instagram
  • generic-social-link
bottom of page