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O Luar Visceral

  • Alexander Bertoti
  • 18 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

As noites de sexta-feira geralmente costumam ser interessantes aqui em minha casa, vivo num local pequeno e de madeira no interior de Vitor Meireles, são nesses dias que o amigo supersticioso do meu pai vem ao tardar nos visitar, quando eu e minha mãe estamos já em nossas camas. Meu quarto fica ao lado da cozinha e pelo vão da madeira presto atenção nas conversas dos dois, deitado em minha cama sou testemunha de várias histórias e assuntos diversos. Mas houve uma noite perturbadora que ouvi a pior de todas.

Já eram quase uma hora da manhã quando o velho Augusto bateu na porta de nossa casa, agitado e nervoso batia inúmeras vezes na porta e sussurrava o nome de meu pai. Com seu velho palheiro na mão lentamente ele atendeu a porta e o velho numa velocidade estranha entrou com sua espingarda em suas costas, molhado e sujo. Havia algo que parecia manchas de sangue em suas roupas, talvez dele ou de outra pessoa.


— O que houve Augusto? disse meu pai preocupado e assustado


Um Lobo! Um lobisomem velho amigo! disse Augusto tremulo


Do que você está falando?


Se lembra daquele fazendeiro que todos da vila suspeitavam ser um lobo?


Sei...


Ele é! Após alguns tragos eu e uns rapazes fomos averiguar e ter a certeza de que não passava de uma lenda idiota! Mas não, o que vimos foi um monstro!


Tudo bem, sente-se e me conte devagar, do início...


“Após um dia caçando acabei parando no bar com uns amigos, conversa vai e vem. entramos no assunto do velho Krauz, rimos e teve gente que nos olhava e falavam que não sabíamos de nada, que monstros existem em nossa terras, que poderiam ser até mesmo nossos vizinhos e amigos... Tratamos de esquecer o assunto e continuamos na bebedeira, por fim pegamos nossas coisas e íamos para casa quando olhamos para o céu, sabe qual Lua está presente está noite? Isso mesmo, é noite de Lua Cheia. O álcool tratou de nos dar a coragem e ousadia de ir até a fazenda do velho. Pulamos as cercas ao redor e tudo que víamos eram vacas e mais vacas, até chegarmos a grande casa. Logo de chegada vimos algo perturbador, uma ovelha presa numa longa corda em frente a porta do estábulo.


Demos meia volta e ficamos por quase uma hora no mato escondidos, de repente as luzes da grande casa acenderam e começamos a ouvir altos sussurros, gemidos e até mesmo um grito, como se alguém estivesse sentido uma enorme dor. Por um momento passou pelas nossas cabeças de ir ver se alguém estivesse precisando de ajuda, mas ao nos levantarmos ouvimos um tenebroso uivar que parecia chacoalhar todas as paredes daquela casa, um sentimento de medo e apreensão tomou conta de todos. Aprontamos as armas e miramos para a casa, ouvimos um barulho que vinha da parte de trás que pareceu algo se quebrando, uma porta, pode ter sido até uma parede. Mais uma vez aquela uivar dominava a fazenda e de longe as sombras daquelas vacas corriam de um lado para o outro, estavam com medo de algo que estava prestes a se apresentar.

Decidimos que precisávamos sair de lá e esse foi nosso erro, após alguns poucos segundos correndo o grito da ovelha ressoou sobre nossas costas, nunca devia ter me virado. Todos nós então vimos a criatura, o monstro em pé e peludo, agarrava a pequena ovelha como se não fosse diferente de um pão do café da manhã. Aterrorizado um dos rapazes gritou e então o Lobo nos viu, se agachou e em com as quatro patas correu em nossa direção, corremos mais que tudo para dentro da mata e um deles perdi de vista após tropeçar em alguma coisa entre as arvores, um vulto negro que amassava todos os galhos e profanava aquele solo foi em direção de um deles, ouvi um grito e um tiro. Me levantei e sem pensar duas vezes corri para a direção oposta, novamente para a casa do velho, mas mirando no portão de entrada, tropecei mais vezes do que pude contar. Já em campo aberto ouvi mais gritos e tiros, tudo parecia irreal como se naquele momento só existisse nós no mundo todo, não haveria ajuda, nem escapatória. Mesmo assim me agarrei na esperança e medo, segui ao portão e ao chegar nele olhei para a mata novamente, lá estava ele em pé, seus olhos amarelados podiam ser visto de longe e o sangue que escorria de sua boca parecia lama e os pingos que lentamente caiam ao chão podiam ser vistos dentro de minha mente, como uma doença, um horror.

Pulei o portão e na rua escura corria em direção a fazenda do primo Houdini, comecei a ouvir não só meus passos na estrada mas também velozes passos em minhas costas, novamente, mais um uivar e então minhas pernas desistiram, me derrubaram em terra e aos pés no escuro vi de perto o enorme monstro com seus olhos amarelados, o pelo parecia estar banhado por óleo e cheirava a carniça, parecia que estava em frente ao um cão selvagem mas não pude fantasiar por muito tempo, ele pegou uma das minhas pernas e me arremessou ao barranco. Jurava estar morto ali, na terra, na lama e com um pesadelo faminto caminhando em minha direção, me senti como uma pressa abatida e vulnerável.

Mas ele parou e olhou para cima, e falou com um tom monstruoso como se fossem duas vozes ao mesmo tempo.


Jamais pisem em minha terra, na próxima não pouparei a sua vida, humano.


E então saiu lentamente, na escuridão sumiu e eu fiquei lá até que minha alma voltasse para o meu corpo. Pensei em ir atrás dos rapazes, mas me faltou coragem.

Agora estou aqui e sinceramente não me imagino dormindo novamente, como se essa descoberta fosse para sempre me assombrar, como se Lua Cheia jamais fosse abandonar a noite, como se o Sol e a manhã fossem algum tipo de mentira, somente vejo escuridão meu amigo.”


Não existe palavras de conforto para te dizer meu velho, mas irei para a fazenda do velho Krauz agora mesmo.


Não! O que você está pensando? Ele irá te matar! – Disse ele me meio ao terror.


Não seja idiota, se tiver algo lá atiraremos nele!


Atiraremos? Jamais voltarei para aquelas terras...


Então irei sozinho.


Meu pai se levantou e foi na dispensa pegar sua arma, seu chapéu e um lampião velho. Seu amigo ficou ali enquanto ele saia, confesso que naquele momento o terror me perturbava, me sentia paralisado e antes de cair no sono olhava para Augusto que se levantava e limpava o sangue, e a sujeira, por um momento antes de pegar no sono jurei ter visto lagrimas e um silencioso grito de horror sair de sua boca. Quando acordei não havia ninguém na cozinha e meu pai estava em frente à casa olhando para as enormes árvores, me lembro de ter perguntado como ele estava e tudo que recebi foi um olhar melancólico e suas mãos tremiam, abracei-o.

Os rapazes da história foram dito como desaparecidos e seus corpos foram achados meses depois, pareciam ter sido atacados por animais selvagens da região, alguns apontam o Velho Krauz como assassino dos mesmos, mas investigações foram feitas e não foi encontrado nada na fazenda, nem sinal ou sangue humano na mata, ele também nega criar ovelhas. O amigo de meu pai acabou por se mudando para a cidade alguns meses depois, hoje em dia já não possuem contato, mas meu pai sempre diz que a insanidade e idade consumiram para sempre seu velho amigo.


Até hoje em toda Lua Cheia meu pai agora com mais de oitenta anos sente a necessidade de avisar-me que a noite é perigosa e o que o luar esconde pesadelos. Vivo na cidade e não há lobos, nem fazendas, mas entre esses enormes prédios e casas posso jurar que em algumas noites sinto-me vulnerável, como se houvesse monstros no outro lado dos muros e portões.


Apenas me sinto incapaz de os enxergar.




Artista: aurru

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